A DEFESA DE BERLIN
GENERAL GOTTHARD HEINRICI – O “ANÃO VENENOSO” A DEFESA DE BERLIN
Por Ricardo Queiroga
As sucessivas derrotas alemãs após a operação Bragation entre as ofensivas frustradas na Hungria fizeram Hitler e o alto comando repensar o afastamento de Heinrici . Simplesmente o confiaram a uma missão digna de um Marechal. Conferiram o 1º Exército Panzer e do 1º exército húngaro a seu comando. Heinrici conduziu diversas retiradas ordenadas com tenacidade, infringindo várias baixas aos russos e entregando o 1º exército panzer praticamente intacto na Eslováquia e sendo condecorado com a cruz de cavaleiro, com espadas e folhas de carvalho.
Heinz Guderian há um bom tempo não via com bons olhos um ex criador de galinhas e com nenhuma experiência militar como Heinrinch Himmler comandando o grupo de exércitos do Vístula-Oder (última defesa antes de Berlin), onde até então apenas ordenou ofensivas desastrosas e desmoralizou o alto comando com seu total desconhecimento militar. Guderian percebendo a insatisfação disfarçada de Hitler com os fracassos e as mentiras de Himmler, o convenceu em 20 de março de 1945 de retirar o chefão das SS do comando da defesa de Berlin e entregar a Heinrici (outras fontes indicam que Hitler induziu Himmler a pedir saída do comando). Neste momento os russos estavam apenas a 80 km da capital. O grupo de Exército do Vístula-Oder era composto pelo 3º exército Panzer comandado pelo general Hasso von Manteuffel e o 9º exército comandado pelo general Theodore Busse. Heinrici estava encarregado de defender o rio Oder junto com Ferdinand Schörner.
BATALHA DE BERLIN - PRELÚDIO
Ao chegar ao front, o anão venenoso ficou espantado pela baixa quantidade de homens experientes e armas que estavam a sua disposição, pois Hitler não acreditava que Stalin atacaria Berlin diretamente. Heinrici era acostumado a comandar soldados já formados e experientes e por todo perímetro e dentro da capital, Heinrici detinha 500 mil homens, onde a maioria eram civis da volksturm e ou soldados sem experiência militar e não armados. Dentre eles haviam inúmeros estrangeiros, tais como Húngaros e Romenos, dissidentes de seus países já conquistados pela URSS dentro da Wehrmacht. Franceses, Noruegueses e holandeses integravam o corpo de elite dentro das Waffen SS. Esses estrangeiros tinham mais motivos que os próprios alemães para lutar até o fim, já que seriam fuzilados assim que retornassem aos seus respectivos países. Em uma semana o anão venenoso conduziu uma verdadeira revolução na defesa da cidade e fora dela. Ele ordenou que os canhões anti-aéreos (a maioria os flak 88 mm) fossem posicionados na periferia e suas posições reforçadas com concreto, já que pouco podiam fazer em um ambiente urbano e seriam destruídos nas primeiras barragens de artilharia. Devido essa medida, só o 3º exército panzer recebeu centenas de canhões anti-aéreos para seu apoio. Heinrici já sabia do destino inevitável do III Reich, buscou principalmente trazer a batalha para periferia, evitando a morte de civis e soldados em ambiente urbano. Seu objetivo desde o início era retardar fortemente o avanço das tropas soviéticas e ao mesmo tempo permitir que o máximo de civis e soldados pudessem deixar a cidade. Uma evidência disso era que Göring ofereceu 100 mil soldados do corpo ocioso da Luftwaffe, Heinrich Himmler 25 mil de tropas auxiliares das SS e o almirante Doenitz 12 mil da Kriegsmarine. Heinrici recusou todos, alegando que tropas inexperientes era um desperdício de vidas. A falta de armas para armar a população civil da Voksturm comandada e exigida por Goebbels levou os nazistas a recorrerem a material antigo capturado das nações invadidas. Um verdadeiro desafio logístico, em combinar armas francesas, polonesas e tchecas, com munições iugoslavas, gregas e italianas... Só como exemplo, o batalhão Volksturm 16/69 sediado em Wriezen perto do Oder, tinham um lança chamas soviético faltando peças, 3 metralhadoras diferentes, 3 pistolas espanholas e 228 rifles de 6 nações diferentes.
Com os americanos avançando a passos largos pelo oeste, Stalin não queria perder a capital para os yankes, então estimulou uma concorrência entre seus generais Georgy Zhukov e Ivan Konev, o primeiro que chegasse e tomasse Berlin, levaria as honras da batalha rasteando a bandeira no Reichstag. Isso fez com que os russos avançassem ferozmente em direção a cidade à custa de enormes baixas. No início de abril 1945 os soviéticos chegaram próximo ao rio Oder.
Heinrici ficou estarrecido com um encontro que teve com o Ministro das Armas e Munições Albert Speer e o responsável pela defesa da área distrital de Berlin Helmuth Reymann, onde estes informaram o cumprimento do “decreto Nero”, no qual consistia na destruição de toda a infra-estrutura alemã antes das retiradas planejadas. Heinrici mais tarde contrariando essa ordem, convenceu os outros comandantes e ordenou que fossem retirados explosivos das principais pontes sobre Berlin. Das 248 pontes em Berlin 120 foram destruídas (maioria devido aos combates) e 9 avariadas. Seguindo a premissa de Albert Speer, ele também não queria que a Alemanha voltasse a idade média. Mais de 1 milhão de soldados soviéticos foram alocados no front do Oder e meio milhão no fronte Neisse ao sul. Heinrici colocou o grosso das suas melhores tropas (112 mil) no fronte Oder. A soma inicial de equipamento dos exércitos russos empregados na primeira ofensiva a Berlin era de 6.250 tanques, 7.500 aviões, 41.600 obuseiros e morteiros, 3.255 Katyushas, 95.383 veículos de transporte e 2,5 milhões de homens. Heinrici deduziu que o principal ataque soviético viria pelo centro com Zhukov e construiu 3 linhas de defesa com distâncias aproximadas entre elas de 5 km nos montes de Seelow, no qual abrigariam o grosso de suas tropas, deixando ao sul no rio Neisse as suas forças mais fracas e menos numerosas. Heinrici não podia cobrir todos os flancos contando que tinha 10 vezes menos homens que os soviéticos, ele decidiu então apostar que o ataque principal viria do Oder. Se os russos optassem em avançar pelo norte ou pelo sul, Berlin seria rapidamente varrida. Dias antes da ofensiva, ele ordenou que os engenheiros canalizassem a água do rio Oder rio sobe os pés dos montes de Sellow, transformando o terreno em um verdadeiro pântano.
A BATALHA
Para surpresa, Heinrici acertou, Zhukov atacou com sua principal força pelo centro com o 1º grupo de exército bielorrusso. Konev optou em atacar por um caminho muito mais longo pelo sul, com o 1º grupo de exército ucraniano (menos numeroso que o de Zhukov). Nas primeiras horas do dia 16 de abril iniciou a batalha de Berlin, onde Zhukov apostou em destruir todas as forças alemãs em um dos maiores ataques de artilharia da guerra, com uma forte barragem que atingiu a 1ª linha de defesa alemã. Para tristeza dos soviéticos Heinrici já predizendo essa tática padrão soviética tinha ordenado que as tropas abandonassem a 1ª linha e retornassem após o fim da barragem de artilharia. Os soviéticos ao se aproximar da linha foram pegos de surpresa pelo fogo alemão. Tanques russos ficaram atolados no pântano artificialmente criado e os oficiais alemães direcionaram o fogo de sua artilharia com precisão sob as forças soviéticas imobilizadas. Desmoralizado Zhukov teve que admitir a Stalin que o ataque foi um fracasso total. No sul, Konev apesar de ter encontrado uma dura resistência, conseguiu avançar mais que Zhukov, onde este último apelou para um novo ataque, agora noturno utilizando refletores para localizar as posições alemães, no qual também serviram para destacar a silhueta dos soldados e tanques soviéticos que novamente sofreram baixas terríveis, mas Zhukov dessa vez coordenou esse ataque com sua artilharia tanto na 1ª quanto na 2ª linha. No fim do dia conseguiram penetrar a 1ª linha. Stalin frustrado com o atraso de Zhukov, pois temia não tomar Berlin antes do feriado 1º de maio, ordenou que o grosso dos tanques soviéticos fosse destinado a Konev, para fúria de Zhukov. Ao fim do segundo dia as forças de Zhukov conseguiram penetrar a 2ª linha, apesar de ter deixado diversos focos de resistência para trás. Ferdinand Schörner lançou suas reservas blindadas compostas em sua maioria por unidades das SS, onde conseguiram segurar até que a 3ª linha fosse rompida em 19 de abril e todos os focos de resistência fossem eliminados. A 18ª Divisão Panzer Grenadier também conduziu um contra-ataque mas sem sucesso. Toda linha Oder-Neisse se rompeu, mas a uma custa muito alta para os soviéticos que perderam nessa empreitada iniciada no início do mês quase 3 mil tanques, 33 mil mortos e dezenas de milhares de feridos contra 10 mil baixas alemãs. Agora não havia mas nenhuma linha de defesa a caminho de Berlin, o anão venenoso conseguiu dar 4 dias de sobrevida para cidade resistindo a um inimigo infinitamente superior. Atuando agora na cidade, Heinrici via com preocupação as reuniões no Führerbunker, onde após presenciar uma delas entre Hitler e seus generais, discutindo posições de divisões de infantaria e exércitos blindados que não existiam, afirmou: “ pareciam viver numa terra da fantasia”.
Em 20 de abril, como presente de aniversário a Hitler, os soviéticos iniciaram uma barragem de artilharia que só acabaria com o fim da batalha. O total de bombas lançados em Berlin no período foi maior do que todas as bombas lançadas pela aviação aliada contra a capital nos anos anteriores. Heinrici ordenou que todas as tropas se posicionassem na periferia da cidade a fim de segurar a ofensiva final. Nesse mesmo dia Hitler ficou sabendo do sucesso de uma contra-ofensiva conduzida pelo General Ferdinand Schörner com o 4º exército em Bautzen que atingiu a 1ª frente Ucraniana sob comando do General Konev, e imaginou que pudesse unir a ele com o 9º exército e cercar toda a 1ª frente ucraniana soviética quanto a 2ª frente bielorussa que vinha do leste, onde está última seria destruída pelo grupamento Steiner que estava ao norte da cidade segurando as tropas russas que já iniciavam os movimentos de cerco. Isso evidenciou total falta de senso racional por parte de Hitler em querer envolver dois grandes exércitos soviéticos, sendo que os nazistas mal conseguiam frear uma das diversas pontas de lanças soviéticas. Heinrici estupefato com a ordem de Hitler, disse que Steiner não poderia cumprir essas ordens e as mesmas só acelerariam o cerco e destruição das forças germânicas, afirmando que o retirasse do comando caso essa ordem fosse mantida. No dia 22 o general Alfred Jodl após presenciar um ataque de fúria de Hitler contra a “ineficiência” de seus generais acerca de seus contra-ataques exigidos, acalmou os ânimos do cabo afirmando que o 12º Exército de Walther Wenck poderia “largar” o front contra aos americanos e se juntar a batalha. Dessa forma foi permitido que o 9º exército movesse a oeste para se juntar as forças do 12º exército. Contudo a 24 de abril, os soviéticos fecharam o anel de cerco da cidade com a 1ª frente ucraniana e a 1ª frente bielorussa, impedindo a chegada do 4º exército de Schörner que ficou paralisado no sul. A partir desse dia, a vinda do 12º de Wenck se tornou algo sagrado. Graças as ordens de Heinrici de conduzir a luta na periferia da cidade, apenas 60 mil soldados e entre 50 a 60 tanques foram cercados dentro do bolsão, ou apenas 20% de todas as tropas envolvidas na defesa de Berlin. Em 26 de abril os soviéticos chegaram ao aeroporto de Tempeholf e cada vez mais faziam movimentos que anulavam os exércitos alemães para fora do centro da cidade, a exemplo da criação de um bolsão do 9º exército e o afastamento do exército de Steiner no Norte. Soma-se ainda o insucesso de Wenck no resgate com seu 12º exército e da pressão já não mais eficaz de Schörner com seu 4º exército ao sul da capital.
RETIRADA DO COMANDO
Em 28 de abril, dois dias antes da morte de Hitler e no calor no combate o Marechal Wilhelm Keitel observou diversos tanques do general Hasso von Manteuffel “indo embora” do centro de Berlin em direção ao norte, e como Manteuffel reportava a Heinrici, Keitel foi pessoalmente confrontar o anão venenoso que estava em uma coluna acompanhando a retirada de feridos. Keitel em um ataque de fúria afirmou que Heinrici não sabia tratar desertores e que estava agindo com insubordinação, traição, covardia e sabotagem, citando como exemplo o general Lothar Rendulic que atirava em desertores ou os amarravam surrados em árvores. Heinrici então confrontou Keitel e apontando para os soldados em retirada, disse para o próprio Keitel atirar nos “desertores”. Diversos soldados armados com submetralhadoras que presenciaram a situação vieram em ajuda a Heinrici, coagindo Keitel, questionando se estava tudo bem. Keitel não compreendeu que os tanques que ele tinha visto “recuando” estavam cumprindo ordens de Heinrici para evitar um cerco em Neubrandenburg. Desconcertado e envergonhado com a situação abandonou a conversa e retornou a seu refúgio no Bunker. No dia seguinte, Keitel se encontrou com Manteuffel e Heinrici e demitiu o anão venenoso do comando da defesa das forças do Oder. No mesmo momento quis colocar Manteuffel no comando, que recusou e ainda se manifestou contra o tratamento que Heinrici recebeu. Após o encontro, Manteuffel, percebendo o tom de ameça, ofereceu proteção de seus guardas a Heinrici prevendo escalada da situação. Keitel então designou o general Kurt Student para o posto que nem chegou a ocupar, pois vindo da Holanda acabou sendo capturado pelos britânicos. Kurt von Tippelskirch temporariamente assumiu o comando dos exércitos no Oder. No dia seguinte Heinrici foi convocado misteriosamente a um encontro com o alto comando e quando estava a caminho, um desconhecido capitão chamado Hellmuth Lang parou em sua frente e o impediu de seguir seu trajeto, persuadindo o anão para que não fosse ao encontro, temendo que acontecesse o mesmo que aconteceu a Rommel. Heinrici disse que Rommel morreu em combate, Lang negou e revelou que Rommel foi obrigado a cometer suicídio. Heinrici surpreso, questionou como sabia e então Lang revelou que foi o ajudante pessoal de Rommel. Desconcertado Heinrici imediatamente abandonou a capital no dia seguinte, a 30 de abril (data do suicídio de Hitler) e foi para Plön ao norte da Alemanha, se entregando aos britânicos no final de maio. Encerrando sua atuação na Segunda Guerra
Heinrici cobrou um alto preço aos soviéticos pela sua defesa de Berlin e ainda conseguiu salvar centenas de milhares de vidas, tanto de civis quanto de soldados. Somando a batalha do Oder e dentro da capital, os russos tiveram mais de 80 mil soldados mortos e 280 mil feridos. Os alemães tiveram o total de 44 mil mortos dentro da área urbana, sendo metade delas de civis. Por todo o contexto da Batalha de Berlin entre 16 de abril a 02 de maio, os alemães tiveram 100 mil mortos, mais da metade de civis e membros da Volksturm. Heinrici evitou uma nova Stalingrado dentro da capital do Reich. Inúmeros historiadores, como Antony Beevor, Joachin Fest e escritores militares americanos Samuel W. Mitcham e David T. Zabecki descrevem Heinrici, ao lado de Walter Model, como o principal especialista em defesa da Wehrmacht. Gotthard Heinrici faleceu de causas naturais em 1971, sendo enterrado com todas as honras militares.
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Gottard Heinrici, o "anão venenoso" condecorando o general húngaro Dezso Vitez Lászlo, Hungria, março de 1945
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